Pesquisa da hanseníase retoma suas atividades práticas em 2021

Professor Pedro Marçal, do curso de Farmácia, conta com a parceria da Emory University, de Atlanta (EUA), e da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) para o projeto sobre a hanseníase.

A pesquisa sobre o desenvolvimento de um teste rápido para o diagnóstico da hanseníase, que ganhou o apoio e contribuição internacional da Emory University, teve suas atividades práticas retomadas neste final de 2021. O professor e coordenador do curso de Farmácia da Univale, Pedro Henrique Ferreira Marçal, que é doutor em Ciências Biológicas, estuda a doença desde 2008. O conhecimento sobre imunologia instiga o professor cada vez mais a realizar pesquisas, e foi através da hanseníase que ele conseguiu um modelo para estudar a resposta imunológica frente a doenças. Para saber mais sobre a trajetória e os benefícios da pesquisa, confira nossa entrevista com o professor Pedro Marçal.

Quando começou o projeto?

Prof. Pedro — Esse projeto foi proposto em 2019 e no final do ano foi aprovado por duas agências de fomento: o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e o National Institute of Health (NIH), dos Estados Unidos. As pesquisas eram para ter começado em 2020, mas por conta da pandemia elas ficaram atrasadas. Estamos retomando ele em 2021, realizando as coletas de materiais biológicos.

Grupo de pesquisa visita a Superintendência Regional de Saúde de Teófilo Otoni – Imagem cedida por Pedro Marçal

O que mudou desde que o apoio internacional chegou?

Prof. Pedro — O projeto foi construído com um objetivo específico e já existia uma parceria anterior para o estudo da hanseníase, com outras propostas ligadas. A parceria com a pesquisadora Jessica Fairley, da Universidade de Emory, aumentou as chances de aprovação de fomentos para o desenvolvimento da pesquisa. Tanto do ponto de vista nacional quanto internacional, ou seja, com mais investimentos conseguimos ampliar os nossos horizontes.

Quando começam as atividades práticas e quais são elas?

Prof. Pedro — As atividades práticas começaram agora, no final de 2021, há mais ou menos um mês. Começamos a coleta do material biológico necessário para a pesquisa. O projeto prevê a coleta de sangue de 1200 participantes distribuídos em várias áreas. Por exemplo, 300 em Inhapim, 300 em Teófilo Otoni, 300 em Governador Valadares e entorno, e possivelmente 300 em Belo Horizonte. Como o objetivo é fazer um teste diagnóstico para a doença, as amostras não podem ser viciadas. Ou seja, é importante que a população seja heterogênea, de várias áreas do estado e que garanta que as amostras  sejam randomizadas. 

Estão na imagem: Adivete Santos (Referência técnica SRS Teófilo Otoni), Joaniz (Coordenador de Atenção Primária SMS Teófilo Otoni), Rossana (Coordenadora de Atenção Secundária SMS Teófilo Otoni), Tatiane (Técnica do Serviço de Referência de Hanseniase SMS Teófilo Otoni), Edilânio Aparecido (Secretário Municipal de Saúde de Teófilo Otoni), Poliana Ferreira (Coordenação de Epidemiologia SRS Teófilo Otoni) e o professor Pedro Marçal – Imagem cedida por Pedro Marçal

A UFJF e a Emory University estão participando das ações práticas?

Prof. Pedro — Sim, a UFJF e a Emory estão participando. Temos uma parte em que vai haver a coleta de fezes dos participantes e testagem parasitológica dessas amostras, além de outros testes sanguíneos que serão realizados no Laboratório de Imunologia da Univale. 

De onde partiu a pesquisa?

Prof. Pedro — Sempre trabalhei com a perspectiva de um teste diagnóstico precoce para a doença. O meu projeto de doutorado teve um resultado muito bom, tendo em vista que trabalhei com uma proteína recombinante chamada LID-1. Ela é específica do mycobacterium leprae, bactéria causadora da hanseníase, e conseguimos identificar nela uma capacidade de utilizá-la para o diagnóstico precoce, identificando anticorpos em indivíduos que ainda não haviam desenvolvido sintomatologia. Essa perspectiva se mostrou muito boa para um teste de diagnóstico precoce, tanto que continuo trabalhando com essa proteína. 

Professor Pedro Marçal, no Laboratório de Imunologia da Univale em 2018 – Acervo Univale TV

E quais foram os principais resultados encontrados até agora?

Prof. Pedro — Temos mais respaldo de que essa proteína funciona e estamos partindo para a testagem final. A perspectiva é gerar um teste rápido, como aquele utilizado para glicemia, tornando possível a identificação de pacientes precocemente, antes de desenvolver sintomatologia. E então, já podemos realizar um tratamento específico.

Outro resultado promissor do nosso grupo de pesquisa, envolvendo outros professores da Univale — Rafael Gama e Lorena Bruna — é a realização do PCR: reação em cadeia da polimerase, um teste de biologia molecular que identifica DNA bacteriano no corpo de indivíduos. Por meio dele foi identificado o DNA da bactéria em alguns indivíduos aqui de Valadares, que não apresentavam sintomatologia e, após 2 anos de acompanhamento, eles desenvolveram e foram diagnosticados com a doença pelo médico. Em seguida, puderam iniciar o tratamento adequado. O nosso teste já havia identificado a infecção dos indivíduos 2 anos antes do médico diagnosticá-los.

Já é possível falar nos próximos passos da pesquisa?

Prof. Pedro — No processo de pesquisa, precisamos realizar o teste várias vezes para que possamos afirmar, de forma mais proeminente, de que ele funciona de fato. O projeto em parceria com a UFJF e a Emory University vem com esse objetivo: consolidar os resultados que vimos anteriormente. O projeto fará o acompanhamento dos pacientes por 4 anos, e as amostras coletadas serão levadas para os Estados Unidos no início do ano que vem. Ficarei de 2 a 3 meses lá realizando as testagens.

Qual a relevância para comunidade e pra Univale de ter esse projeto?

Prof. Pedro — A relevância para a comunidade é extrema. A hanseníase é uma doença antiga, mas ainda acomete muitos indivíduos. O Brasil é o segundo país em número de casos no mundo e Governador Valadares é a 6ª área do Brasil. E acredita-se que o fato de não existir um teste laboratorial, que permita o diagnóstico preciso desta doença, afete esses dados. É comum você ver na prática clínica pessoas com hanseníase sendo diagnosticadas com micose e vice-versa. Isso prejudica o diagnóstico, o tratamento e a manutenção dos índices elevados na região. Portanto, se estabelecermos um teste diagnóstico, que auxilia o clínico médico, facilitamos a identificação dos indivíduos doentes e já entramos com o tratamento, quebrando a cadeia de transmissão.

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